Em “O Banquete”, diálogo escrito por Platão, Sócrates apresenta Eros, deus do amor, como uma figura descalça, sem casa e sempre em busca daquilo que deseja. A imagem se distancia das representações românticas mais comuns e relaciona o amor à falta e à inquietação.
A explicação é atribuída a Diotima, cujo ensinamento é apresentado por Sócrates durante a conversa. Ela descreve Eros como filho de Pênia, associada à pobreza, e de Poros, ligado aos recursos e à capacidade de encontrar caminhos.
Por essa origem, Eros não possui plenamente tudo o que procura, mas também não permanece imóvel diante da ausência. Ele deseja a beleza e o bem, tenta alcançá-los e volta a buscá-los quando aquilo que conseguiu escapa. A aparência rude e os pés descalços simbolizam esse movimento constante.
Em uma passagem resumida e traduzida livremente, a descrição afirma: “O amor é sempre pobre e está longe de ser delicado e belo, como muitos imaginam; é rude, maltrapilho e descalço.”
O desejo pelo que ainda não está garantido
Antes de relatar o ensinamento de Diotima, Sócrates questiona os participantes do banquete sobre a possibilidade de alguém desejar aquilo que já possui. A resposta não se limita a uma negação simples.
Uma pessoa saudável, por exemplo, pode desejar continuar assim no futuro. Nesse caso, ela busca algo que ainda não tem garantido: a permanência de uma condição considerada boa.
A ideia não transforma o amor em uma regra sobre relacionamentos nem afirma que alguém só possa amar aquilo que não consegue ter. O desejo aparece como um movimento em direção ao que falta ou ao que se teme perder.
No diálogo, o amor também não se restringe à atração por outra pessoa. Ele alcança a procura pela beleza, pelo bem e pela felicidade. Assim, a imagem de Eros descalço representa a busca por algo além do que já está ao alcance e o desejo de conservar aquilo que foi encontrado.



