ILHA DO MARAJÓ — Na década de 1970, o padre jesuíta italiano Giovanni Gallo encontrou uma maneira incomum de arrecadar recursos para comunidades isoladas do Pará: vender piranhas empalhadas na Europa. Cerca de 12 mil peixes foram aproveitados pelo projeto, que também criou trabalho para moradores da região.
As piranhas ficavam presas nas redes dos pescadores e tinham pouco valor comercial. Em vez de serem descartadas, eram recolhidas e preparadas em um laboratório instalado na Vila de Jenipapo. Gallo ensinou mulheres da comunidade a embalsamar os animais e usou contatos na Itália para comercializar as peças.
Renda para obras comunitárias
O dinheiro obtido com a atividade artesanal foi usado em obras de infraestrutura. A comunidade construiu cerca de 350 metros de pontes de madeira, um cemitério e uma pista de pouso de aproximadamente 800 metros, além de outras estruturas locais.
O projeto aproveitou um recurso abundante na região para gerar renda e financiar soluções para problemas do cotidiano, sem depender apenas de recursos externos. Moradores também participaram diretamente da preparação dos peixes e do processo produtivo.
Museu do Marajó
A atuação de Gallo incluiu ainda a criação de uma instituição dedicada à história e à cultura da região. Em 1981, ele fundou o Museu do Marajó, inicialmente em Santa Cruz do Arari. Anos depois, o museu foi transferido para Cachoeira do Arari.
O acervo reúne peças arqueológicas, objetos do cotidiano e elementos da cultura marajoara. A proposta também estimulava a participação dos moradores na preservação e na construção do acervo. Entre as iniciativas de Gallo estavam os chamados “computadores caipiras”, estruturas educativas feitas com madeira, barbantes e manivelas.
Giovanni Gallo morreu em 2003. O Museu do Marajó e as obras financiadas pelo projeto das piranhas permanecem associados à memória e à identidade do Marajó, em um legado que atravessou décadas na Amazônia.



