O bispo dom Roberto Francisco Ferreira Paz, da diocese de Campos, cobrou explicações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre a promessa de, caso eleito presidente, decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo. Para o religioso, a medida levanta dúvidas sobre a liberdade religiosa e a laicidade do Estado brasileiro.
Dom Roberto integra a Pastoral da Saúde e a Comissão para o Laicato da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ele classificou a promessa como perigosa por envolver cidadãos de diferentes religiões.
“O que pode significar isso para a liberdade religiosa e para os religiosos não-cristãos?”, perguntou o bispo. Ele também questionou se a iniciativa poderia criar privilégios para cristãos. Segundo Dom Roberto, a liberdade religiosa e de crença é um princípio da Constituição brasileira.
Fé pessoal e ação de governo
Para o bispo, um político pode declarar sua fé, mas não deve transformar uma crença individual em política pública. “O Estado não tem fé. O Estado deve garantir o exercício da fé de todos”, afirmou.
Dom Roberto disse que Flávio, por ser evangélico, pode fazer uma declaração religiosa, mas não anunciar um ato que, na avaliação dele, fere a laicidade do Estado. O religioso também afirmou que o presidente deve governar para cidadãos de todas as religiões e não escolher ocupantes de cargos públicos com base em critérios confessionais.
A promessa foi feita por Flávio Bolsonaro em agosto, quando ele justificou a ausência em um debate da TV Bandeirantes. Na ocasião, o candidato disse que gostaria de debater com quem não acredita em Deus e anunciou a intenção de oficializar a declaração sobre o Brasil e Jesus Cristo caso chegasse à Presidência.
A assessoria de Flávio Bolsonaro foi procurada e ainda não havia respondido aos questionamentos de Dom Roberto.
Atrito com a CNBB
A manifestação ocorre depois de um conflito entre Flávio e a CNBB provocado pela circulação de uma informação falsa de que ele retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil se fosse eleito. Não há indício sólido de que essa medida estivesse nos planos do candidato.
Flávio classificou o conteúdo como uma grande mentira e afirmou defender a liberdade religiosa. Ele também acusou pessoas de dentro da CNBB de ajudar na divulgação da informação. Nesta segunda-feira (28), após a conferência negar a disseminação da notícia, o candidato agradeceu à entidade por confirmar que se tratava de uma fake news.
Dom Roberto ainda mencionou a influência de uma doutrina dominacionista ligada ao fundamentalismo religioso pentecostal radical dos Estados Unidos e citou a ditadura de Augusto Pinochet no Chile, nos anos 1970, como exemplo histórico de favorecimento a grupos evangélicos.




