BRASÍLIA — Um menino de Minas Gerais dizia, aos dois anos, ser a reencarnação de um padre que havia morrido em um acidente de trânsito. O caso foi apresentado pelo médico de família e comunidade Eric Ávila durante um debate sobre como profissionais de saúde podem lidar com experiências espirituais em consultórios.
Ao ser perguntada sobre a origem das lembranças, a criança respondeu: “Foi o coração”. Ávila afirmou que a investigação acadêmica sistemática de ocorrências desse tipo já dura mais de 60 anos e começou com o psiquiatra Ian Stevenson, na Universidade de Virgínia.
Segundo o médico, muitas crianças apresentam sintomas de estresse pós-traumático na infância em razão da carga emocional envolvida nesses relatos. Ainda assim, a maioria chega à idade adulta com excelente qualidade de vida.
A orientação discutida no encontro é que a criança seja avaliada sem que o profissional presuma imediatamente a existência de uma psicopatologia. A experiência deve ser acolhida como real e significativa para o paciente, com validação das emoções e atenção ao sofrimento psíquico ou ao luto, sem que o atendimento dependa de comprovar a veracidade do relato.
Formação e escuta clínica
A professora Míriam Martins Leal afirmou que o psicólogo precisa deixar de lado as próprias crenças para acolher e respeitar a realidade do outro. Ela citou o atendimento de uma paciente em surto psicótico que temia receber um castigo divino depois do divórcio.
Para os participantes, o objetivo é preservar a segurança da criança e considerar a dinâmica e o contexto cultural da família, sem impor as convicções pessoais do terapeuta. Também foi recomendado evitar respostas que reduzam o relato a uma “baboseira”.
A enfermeira e antropóloga social espanhola Laura Martínez relacionou o bem-estar espiritual a melhor qualidade de vida, resiliência e capacidade de enfrentar doenças. Em participação remota no congresso científico Encuca, realizado no Centro Universitário de Brasília (Ceub), ela defendeu formação rigorosa para os profissionais.
Martínez também alertou que o atendimento espiritual exige qualificação, pois pode envolver má prática e efeitos adversos, indesejados ou colaterais, como outras técnicas de cuidado.




