BRASÍLIA — Sobreviver a uma queimadura envolve mais do que tratar as feridas. As cicatrizes, as mudanças na aparência e as limitações físicas podem afetar a autoestima e exigir acompanhamento psicológico durante e depois da internação.
Mauro Silva viveu essa experiência após a explosão de uma panela de pressão industrial no Restaurante Universitário da Universidade de Brasília, em 25 de abril de 2012. Cozinheiro, ele teve queimaduras nas costas, nos braços e no rosto e foi levado pelo SAMU ao Hospital Regional da Asa Norte (HRAN).
Durante as duas semanas de internação, Mauro não conseguia ver o próprio rosto por causa das bandagens. Além da dor, dos enjoos e dos cuidados com a pele, temia perder o cabelo e ficar com marcas permanentes. “Achava que o mundo tinha acabado para mim. Não desejo isso pra ninguém”, relembra.
O psicólogo Pedro Barbosa, do HRAN, explica que a aparência costuma ficar em segundo plano na fase de risco. Depois da estabilização, porém, as questões subjetivas ganham espaço. Para ele, perdas significativas podem provocar um processo de luto, cuja intensidade varia conforme as sequelas e o significado atribuído a elas.
Mauro teve queimaduras em cerca de 30% do corpo e, após a retirada dos curativos, percebeu que a situação era menos grave do que imaginava.
Adaptação à nova imagem
Lara Andrade enfrentou queimaduras durante uma festa de aniversário, quando uma lareira ecológica entrou em contato com álcool etílico. Com cerca de 20% do corpo queimado, foi atendida pelo SAMU e internada no HRAN. As lesões atingiram regiões do queixo às canelas, com queimaduras de primeiro a terceiro grau.
Dois meses depois, Lara havia voltado para casa e tentava retomar a rotina. A perda de parte dos cabelos, que sempre fizeram parte de sua identidade, foi uma das mudanças mais difíceis. Ela encontrou no corte e no autocuidado uma forma de reconstruir a relação com a própria imagem.
A jovem também destacou o papel da terapia, da família, dos amigos e do namorado durante a recuperação. O acompanhamento psicológico ajudou a lidar com a sensação de incapacidade e com a necessidade de adaptar atividades simples.
Prevenção e atendimento
José Adorno, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras e ex-diretor do HRAN, afirma que queimaduras podem comprometer vários sistemas do corpo, causar risco de morte e deixar sequelas permanentes. Segundo ele, o Brasil registra mais de 3 mil mortes por ano, incluindo cerca de 300 casos em crianças.
Dados da Unidade de Queimados do HRAN mostram que, em 2025, foram realizados 6.934 atendimentos. O Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal orienta proteger a área lesionada com um pano limpo, interromper o contato com o agente causador e retirar anéis e relógios. Não se deve estourar bolhas nem aplicar pasta de dente, gelo ou outras substâncias.
Entre janeiro e maio de 2026, foram registradas 50 ocorrências no Distrito Federal. De acordo com o bombeiro militar Iago Soares, muitos casos acontecem em casa e envolvem panelas de pressão, óleo quente, curto-circuitos ou velas acesas.




