A alopecia areata é uma doença autoimune que ataca os folículos pilosos e provoca episódios de queda de cabelo e de outros pelos do corpo. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a condição acomete cerca de 2% da população mundial e pode surgir em qualquer etapa da vida.
A dermatologista Enilde Borges Costa, da SBD, explica que a doença pode aparecer em pequenas áreas do couro cabeludo, atingir todo o cabelo ou provocar a perda dos pelos do corpo inteiro, quadro conhecido como alopecia areata universal. Os episódios podem ser seguidos pelo crescimento dos fios e por novas quedas.
O diagnóstico é clínico, feito no consultório. Até o momento, não há exame laboratorial ou de imagem específico para confirmar a condição. Como a doença não causa lesões, cicatrizes ou feridas, o principal sinal é a ausência de pelos. A avaliação também pode considerar a perda de fios na barba, nos cílios e nas sobrancelhas.
Tratamentos e efeitos emocionais
A doença tem componente genético e pode ser desencadeada por diferentes fatores. Situações intensas de estresse podem contribuir para o surgimento de episódios, mas Enilde alerta que atribuir a condição apenas às emoções pode fazer o paciente se sentir culpado pelas crises.
A revisora de livros Beatriz Santos convive com a alopecia desde 2008. Quando tinha entre 15 e 16 anos, percebeu uma falha de oito centímetros perto da nuca durante um penteado. Ela passou por tratamentos com corticoide oral e aplicações no couro cabeludo, mas teve efeitos colaterais e sentiu dores durante as injeções.
Com outro esquema de tratamento, o cabelo voltou a crescer em algumas áreas. Após um ano, porém, um exame de densidade óssea apontou osteopenia, perda gradual de massa óssea. Beatriz decidiu interromper o tratamento e, em 2012, perdeu todo o cabelo e os pelos do corpo. Desde então, convive com a forma universal da doença.
O corticoide pode ser administrado por via oral ou injetável, mas o uso prolongado pode causar efeitos colaterais, incluindo perda de densidade óssea. Por isso, a dermatologista afirma que os pacientes precisam ser acompanhados com exames laboratoriais frequentes.
Com o passar do tempo, Beatriz passou a lidar melhor com a condição. Ela já usou peruca, aprendeu a desenhar a sobrancelha com maquiagem e atualmente não tenta esconder a falta de pelos. A terapia também contribuiu para esse processo. “A alopecia não é o principal, não é o centro”, afirma.
Rede de apoio
Enilde criou o Alopecia Areata Grupo de Apoio (AAGAP), que se reúne uma vez por mês, em São Paulo, e mantém um espaço de escuta e troca de informações pelo WhatsApp. Beatriz frequentava os encontros com os pais. Juliana Fernandes participou da segunda reunião, há 23 anos, e hoje ajuda no acolhimento e na administração do grupo.
Juliana teve o primeiro episódio aos 10 anos. O cabelo voltava a crescer com o tratamento até os 17 anos, quando os medicamentos deixaram de apresentar efeito. Ela passou a usar recursos como perucas e lenços, mas depois decidiu não disfarçar a alopecia universal. Com o grupo e a terapia, aprendeu a aceitar a própria aparência.
“Me olho no espelho e me acho normal. Estou mais da metade da minha vida sem cabelo, é natural”, diz Juliana.
Familiares também procuram apoio. Regina Ramos, psicóloga e mãe de um adolescente com alopecia, afirma que a família acompanha as pesquisas, mas considera os efeitos colaterais dos tratamentos. Até o momento, a prioridade tem sido trabalhar a autoestima e a autoimagem do filho.
Paloma Monteiro da Lava também busca fortalecer o filho Levi, de 5 anos. A queda começou após um quadro de febre alta que durou dois dias, e o diagnóstico foi feito em maio de 2025. O menino está no terceiro tratamento e é acompanhado por uma dermatologista. A família decidiu interromper a medicação caso ela afete a saúde da criança.
Paloma criou a campanha “Eu sou mais que aparência” para compartilhar informações, promover debates e aproximar crianças com alopecia. Levi leva na mochila um boné, óculos escuros e uma fralda de pano para impedir que o suor caia em seu olho. A mãe também conversa com a escola para evitar situações que possam expor a falta de cabelo.
Discussão sobre direitos
Desde 2022, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 801/2022, que propõe incluir a alopecia areata no Estatuto da Pessoa com Deficiência. A proposta já passou pela Comissão de Defesa das Pessoas com Deficiência e aguarda discussão na Comissão de Saúde.
O projeto prevê amparo legal e pode ampliar políticas públicas voltadas às pessoas com alopecia. Beatriz e Juliana, porém, são contrárias à inclusão da doença entre as deficiências físicas. Elas afirmam que a condição não impede a realização de atividades cotidianas.
Regina defende a ampliação do atendimento público e cita uma lei municipal aprovada em 2025, em São Paulo, que criou um protocolo para pacientes com alopecia areata, incluindo exames e encaminhamento para acompanhamento psicológico gratuito. Paloma avalia que a proposta em discussão pode ampliar o conhecimento sobre a doença e garantir direitos ao filho no futuro.




