Porto Alegre, Quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Saúde e treino

Violência doméstica leva 15 mulheres por dia a hospitais no Brasil, aponta estudo

Pesquisas da Unifesp usaram inteligência artificial para identificar padrões de internações, ferimentos e notificações de violência contra mulheres.

Violência doméstica leva 15 mulheres por dia a hospitais no Brasil, aponta estudo

Ao menos 15 mulheres foram internadas por dia em hospitais brasileiros entre 2008 e 2023 após episódios de violência doméstica, aponta um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva. A pesquisa analisou 90.798 internações de mulheres de 20 a 59 anos registradas no Sistema de Informações Hospitalares (SIH) do Sistema Único de Saúde (SUS).

Os pesquisadores aplicaram ferramentas de inteligência artificial para encontrar padrões clínicos em grandes bases de dados. O levantamento identificou que muitas vítimas chegaram aos hospitais com politraumatismos, geralmente associados a acidentes graves, mas causados, nesses casos, por agressões com armas brancas, objetos cortantes ou força física.

“É um caso de violência que chega como se fosse um atropelamento, um politraumatismo. É absurdo”, afirmou Maria Elisabete Salvador, professora do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina e uma das autoras.

Perfis de vítimas e tipos de ferimento

Um algoritmo de aprendizado de máquina chamado LDA separou as internações em nove perfis clínicos. Mulheres de 20 a 29 anos formaram o grupo mais atingido, com 17,2% dos casos. Elas foram submetidas a cirurgias de emergência por politraumatismos ou ferimentos no tórax provocados por objetos cortantes.

Entre mulheres de 40 a 59 anos, apareceram principalmente internações após agressões com força corporal ou objetos contundentes. Casos de extrema gravidade representaram 5,5% do total e incluíram agressões com armas de fogo ou envenenamento, com necessidade de cuidados intensivos em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e risco elevado de morte.

O sistema também encontrou associação entre traumatismos no punho e na mão e ataques com objetos cortantes. Essas lesões são apontadas pela medicina legal como possíveis tentativas de defesa contra lâminas.

Uma segunda pesquisa do grupo analisou prontuários eletrônicos de hospitais da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), mantenedora do Hospital São Paulo. Com o modelo de inteligência artificial generativa Llama-3, foram examinados registros de 720 atendimentos a mulheres de 18 a 64 anos agredidas entre 2020 e março de 2026.

Em 60,2% dos prontuários, o instrumento usado não foi informado. Entre os registros com essa informação, socos apareceram em 14,2% das citações, seguidos por chutes, facas ou objetos cortantes e armas de fogo. Rosto, cabeça e braços foram as áreas mais atingidas.

Armas de fogo elevaram em quase oito vezes o risco de perfurações no abdômen. Facas aumentaram a probabilidade de ferimentos no tórax e no abdômen, enquanto garrafas ou pedaços de vidro multiplicaram por seis as lesões nas mãos. Casos de violência sexual tiveram frequência de lesões genitais quase 19 vezes maior que os demais atendimentos.

Notificações em São Paulo

Outro estudo avaliou 80.148 notificações de violência contra mulheres de 20 a 59 anos na cidade de São Paulo entre 2013 e 2023. A média de idade foi de 34 anos. Mulheres pretas e pardas representaram 52,9% dos registros, embora correspondessem a 32,6% da população paulistana.

A violência física foi a modalidade mais notificada, seguida pela psicológica e pela sexual. Os autores dos abusos eram majoritariamente homens, com destaque para parceiros e ex-parceiros.

O consumo de bebidas alcoólicas pelo agressor esteve associado a uma prevalência 32% maior de violência sexual e 17% maior de agressão física. Mulheres gestantes apresentaram quase 2,5 vezes mais chances de sofrer violência sexual do que mulheres não gestantes.

“Uma coisa é você estudar o passado, outra é você conseguir prever o que vem pela frente. Isso, sim, é fundamental”, disse Maria Elisabete Salvador.

Com o algoritmo Prophet, os pesquisadores projetaram aumento em todas as modalidades de violência nos 24 meses seguintes, com possibilidade de alcançar até 12 ocorrências por 100 mil mulheres. O pesquisador André Shimaoka afirmou que o crescimento das notificações também pode refletir maior disposição das vítimas para denunciar ou melhora na qualidade dos registros.

Os três trabalhos receberam financiamento do Fundo Nacional de Saúde, ligado ao Ministério da Saúde, e acompanhamento do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit). Para proteger a privacidade das pacientes, os autores criaram o Processo Padrão de Pesquisa em Saúde para Inteligência Artificial (HRSP-AI).

Texto produzido pela Redação Radar da Arena com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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