SÃO PAULO — O diagnóstico de Alzheimer continua sendo clínico, mas exames de sangue já podem ser usados como ferramenta complementar para identificar biomarcadores associados à doença. A indicação é para pessoas acima de 55 anos que apresentam declínio cognitivo perceptível ou suspeita da doença — não para indivíduos sem sintomas.
A avaliação começa na consulta, com a história do paciente e testes cognitivos. O exame pode ajudar a verificar se as alterações observadas têm relação com o Alzheimer. Segundo Leonardo Oliva, geriatra e presidente da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), pacientes assintomáticos não devem fazer esse tipo de teste, mesmo quando têm histórico familiar.
Preços e disponibilidade
Os exames estão disponíveis apenas na rede particular. Eles não são oferecidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e não têm cobertura dos planos de saúde. Os valores variam de R$ 1.800 a R$ 5.000, conforme a metodologia e o laboratório.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informa ter produtos regularizados para detectar diferentes biomarcadores. A lista inclui 30 testes, com opções que analisam sangue ou plasma e outras destinadas ao líquor, líquido que envolve o cérebro.
Um dos exames disponíveis é o Precivity AD2, oferecido pelo laboratório Fleury. A coleta ocorre no Brasil, mas a análise é feita nos Estados Unidos. O teste combina marcadores de beta-amiloide e proteína tau e custa cerca de R$ 4.400.
No Richet, laboratório da Rede D’Or, o exame que mede apenas a p-tau217 custa R$ 1.800. Na Rede Dasa, os valores dos diferentes testes ficam entre R$ 841 e R$ 4.500.
Biomarcadores e diagnóstico
Oliva afirma que a p-tau217 é atualmente o marcador sanguíneo mais preciso para confirmar Alzheimer em pacientes com sintomas. Os principais biomarcadores associados à doença são a beta-amiloide e formas da proteína tau, relacionadas ao acúmulo de placas e proteínas anormais no cérebro.
Para Eduardo Zimmer, professor adjunto do Departamento de Farmacologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a avaliação clínica identifica corretamente a doença em cerca de 70% a 75% dos casos. Com a combinação de biomarcadores, o índice pode chegar a 91%.
Antes dos testes sanguíneos, a investigação dependia principalmente da coleta de líquor ou de exames de imagem, como o PET amiloide. O líquor custa de R$ 2.000 a R$ 3.000 e exige punção lombar. Já o PET amiloide pode chegar a R$ 10 mil e R$ 12 mil, além de depender de infraestrutura especializada. Nenhum dos dois é oferecido pelo SUS ou coberto pelos planos.
Pesquisas e tratamentos
Um estudo publicado em julho na revista Jama reuniu dados de 2.684 idosos sem sinais de perda de memória no início do acompanhamento. Em um período mediano de 5,4 anos, 478 evoluíram para algum grau de comprometimento cognitivo. Entre os participantes com níveis altos de p-tau217, o risco em cinco anos foi de 24%; nos níveis muito altos, chegou a 38%.
Os pesquisadores ressaltaram que os dados vieram de grupos selecionados para pesquisa e ainda precisam ser validados em populações mais representativas antes de orientar decisões clínicas em pessoas sem sintomas.
Fábio Henrique Porto, presidente da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer) em São Paulo, afirma que o exame pode favorecer a identificação da doença em fases mais iniciais. Para Oliva, os testes também podem ampliar o acesso a tratamentos recentes, indicados para comprometimento cognitivo leve ou demência leve.
Os medicamentos lecanemabe (Leqembi) e donanemabe (Kisunla), aprovados pela Anvisa, não estão disponíveis no SUS nem são cobertos pelos planos de saúde.



